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Sunday, May 11, 2014

Sem vergonha

Vivemos num mundo diversificado. Há quem ganhe muito na vida. Há quem passe a vida sem ganhar muito. Contudo, existem sempre aqueles que pensam que são predestinados, como estes: De negócio rico, as farmácias passaram, em poucos anos (menos de uma década), a negócio remediado. Se há alguns anos se falava em trespasses milionários, da ordem dos quatro a cinco milhões de euros, agora há farmácias à venda que ficam sem comprador e a situação financeira de muitas está, garante a ANF, periclitante. 

E então? As mercearias de bairro e muitos restaurantes foram durante décadas, bons negócios e deram suporte a negócios familiares relevantes, como é o caso da Jerónimo Martins (ter-se-á iniciado como mercearia). Hoje, as mercearias não representam sequer 25% do número das que existiam há 30 anos. Ninguém quer ser merceeiro, no século XXI.

Se formos falar do consultório médico, a situação é a mesma. Há 30 anos, era vulgar encontrarem-se consultórios médicos, onde vários médicos fizeram fortuna. Hoje, ter um consultório médico aberto é quase sinónimo de "moscas"! As clínicas e os "centros comerciais de saúde" absorvem tudo.

O que é caricato na choraminguice dos farmacêuticos é isto: A Farmácia Teixeira, na Baixa da Banheira, Moita, era um bom negócio. Tão bom que, há alguns anos, chegaram a oferecer-lhe três milhões de euros pelo alvará. Agora, Manuela acabou por fazer a transacção por 850 mil euros. “Não foi mal vendida”, admite, satisfeita porque a Teixeira passou para as mãos de uma jovem farmacêutica.

Esta Dra. Teixeira ainda não percebeu que está a gozar com a generalidade da actividade comercial portuguesa. Pois considerar que vender um alvará de farmácia por 850 mil euros é coisa pouca, pode até ser aviltante.

Num momento de falência da nação, associada à falência de muitas empresas e famílias, esta gentalha das farmácias parece gozar com o destino alheio, sobretudo quando beneficiam de um monopólio que lhes é atribuído por Lei, a venda de medicamentos com prescrição.



Friday, January 18, 2013

Lobos com pele de Cordeiro

Engraçados e patuscos estes farmaceuticos de oficina: Mais de metade das farmácias tinha o fornecimento de medicamentos suspenso em dezembro, mês em que estes estabelecimentos registaram a maior quebra nas vendas, revelou hoje a Associação Nacional de Farmácias (ANF).

Durante décadas, entrelaçaram-se com o Estado, através de negócios tripartidos entre o Ministro de serviço na João Crisóstomo e a banca que oleava o sistema. Viveram como nababos, viajaram por paraísos tropicais, ajudaram à expansão económica dos grupos automóveis alemães, fizeram de cada farmácia de oficina, um objecto de luxo, travestido de serviços de saúde.

Agora, choram, fazem birras, e até luto: Em dezembro de 2012, o número de farmácias com fornecimentos suspensos em pelo menos um grossista era de 1600, ou seja, mais de 55 por cento do total das farmácias do país.

Esqueceram-se que a farmácia de oficina é um negócio, com uma vertente regulamentar, mas simultaneamente altamente protegido pelo sempre amigo Estado, pois foi e é o seu melhor cliente, e ainda por cima, permite que a abertura de farmácias seja limitada por Lei.

Mas, o sempre adormecido Estado, lá acordou, depois de uma falência evidente, e teve que corrigir a obesidade: No total de 2011 e2012, a redução da despesa pública com medicamentos dispensados nas Farmácias será superior a 600 milhões de euros.

Parabéns, Dr. Paulo Macedo.

Sunday, December 16, 2012

Farmácias em luto

Fazer dos outros parvos, foi sempre um dos desportos favoritos de uns quantos cidadãos portugueses. Depois de durante décadas, os detentores de farmácias enriquecerem quase todos, muito à custa de uma relação duradoura com o seu principal cliente, o Ministério da Saúde, de repente viram o seu maná ficar ameaçado porque Portugal faliu. Como Portugal faliu, o Ministério da Saúde deixou de poder ser bondoso para os proprietários de farmácias. Estes, como vingança, decidiram escrever por todo o Portugal, "farmácias em luto".

Há quem lhes chame espertos. Há quem lhes chame, "chicos". Nós rimo-nos, não porque a desgraça alheia nos dê prazer, mas porque o feitiço se pode virar contra o feiticeiro: Uma empresa detida em parte pela Associação Nacional de Farmácias é suspeita de exportação ilegal de medicamentos para vários países europeus, originando falhas no abastecimento às farmácias em Portugal.

Como o assunto é sério, pois a dívida do Estado português durará décadas a ser paga, é com absoluto desdém que assistimos ao dito luto. De luto estão os contribuintes que têm que aguentar a pilhagem fiscal em curso, muito por força da bondade do Estado durante décadas, sobretudo junto de uns quantos amigalhaços.

Sunday, October 14, 2012

Lutos escusados

Fonte: aqui.

A morte é inevitável. O prolongamento da vida é um objectivo permanente do ser humano. A melhoria da qualidade de vida é uma necessidade permanente. A complacência quando levada ao extremo, é mortal. Tudo isto a propósito do chamado "luto dos farmaceuticos".

Uma parte significativa dos portugueses estão em luta. Uma pequena parte está de luto. A maioria dos portugueses viveram uma significativa melhoria do seu nível de vida durante quase três décadas. Apesar disso, em 3 vezes, Portugal precisou de crédito externo apressado, motivado por um estado de falência evidente. Ou seja, os portugueses não aprenderam. Julgaram que era possível ter um nível de vida de primeiro mundo, tendo uma eficiência de segundo ou de terceiro mundo.

Depois da abastança dos BMW's, dos Mercedes e dos Audi's; depois das luxuosas campanhas de comunicação da Associação e dos associados; depois da transformação da farmácia numa loja de luxo; depois dos enormes lucros acumulados durantes décadas. Agora, a choraminguisse e a pedinchisse: O alargamento do prazo do "relacionamento entre a indústria farmacêutica, os grossistas e as farmácias" iria possibilitar a "libertação de fundos para a reposição de stocks", justificou o responsável no cortejo dos profissionais de farmácia, em Lisboa.

Quem não sabe ser merceeiro, fecha a loja! Implorar ao governo que interceda junto de um fornecedor, só lembra a quem gosta muito de um Estado paternalista e deve ter saudades da economia contingentada!

Thursday, September 27, 2012

Lutos

Estar de luto não é bom. Perdeu-se alguma coisa. Perdeu-se alguém. Há, no entanto, quem goste de estar de luto, apenas porque não soube cuidar do seu negócio: As farmácias portuguesas foram chamadas a "pôr luto" e explicar aos utentes as razões que podem levar ao encerramento de 600 unidades, numa ação hoje iniciada que inclui uma petição ao Governo para alterar as políticas do sector.

Engraçado. Curiosamente engraçado, quando deveria ser triste, e até mesmo sinistro. Alguém que comprou um alvará, que foi concedido pelo Estado, para a exploração de um negócio, e não soube gerir a loja, quando tem o privilégio supremo de actuar num mercado contingentado e não num mercado livre. Quem dera as mercearias, que o estado condicionasse no passado, a abertura de supermercados e hipermercados. Se o Estado o tivesse feito, ainda haveriam mercearias nos centros das cidades.

Depois, alguém que é suposto saber da lógica do negócio e da legislação inerente, emite atoardas deste género: Por isso, "se nada for feito o risco é que um número significativo de farmácias, cerca de 600, possa vir a encerrar", afirmou Paulo Duarte, apontando o impacto a nível de emprego, pois "há cerca de 100 mil famílias que dependem direta e indiretamente das farmácias".

Oh meus amigos, os alvarás das farmácias são concedidos pelo Estado, via Infarmed, e se as farmácias se tornarem insolventes, competirá naturalmente ao mesmo Estado colocar no mercado novamente os alvarás. Ao contrário do que dizem, o negócio de farmácia é viável, mesmo com a recessão económica e com o emagrecimento das margens de lucro. Naturalmente que a viabilidade das farmácias passa por uma lógica de gestão, algo que muita gente no sector nem sequer sabe o que é. Se forem entregues os alvarás das farmácias aos principais operadores retalhistas portugueses, eles não perderão dinheiro, com certeza.

Tantos incompetentes, num país tão pequeno, com um poder de opinião maior do que eles!

Friday, September 14, 2012

Lágrimas de crocodilo

Vivem-se em Portugal, situações de drama. Drama real. Drama ficcionado. Se há muita gente que é vítima da recessão económica por razões reais, como sejam as relacionadas com a deslocalização de empresas. Outros há, que viveram durante décadas situações confortáveis, mas não se prepararam para dias mais agrestes.

As farmácias gritam agora: “se nada for feito urgentemente, 600 farmácias, das 2900 que existem, irão encerrar no próximo ano”. Curioso era, que antes, existisse um sector imune à falência. Nas actividades económicas, as falências devem ser encaradas como normais, ainda que não devam ser em quantidades exageradas. Anormal eram os valores de trespasse de cada farmácia, fossem elas pequenas ou grandes, situadas nas grandes cidades ou em zonas rurais.

Num país sempre dependente do Estado - paternal, é normal este tipo de queixume: A solução proposta pela ANF para tentar solucionar a situação é “um pagamento adicional às farmácias de 0,94 cêntimos por embalagem vendida, valor a suportar pela indústria sem penalizar os doentes”.

Porque é que a Indústria farmacêutica haveria de pagar 94 cêntimos por embalagem ao retalho farmacêutico? Porque é que as farmácias mantém uma margem de lucro fixada por Lei nos medicamentos sob prescrição médica?

Enquanto as farmácias beneficiaram do facto de serem um apêndice do Ministério da Saúde, com margens brutas elevadas e garantias de pagamento, tiveram uma vantagem competitiva única na actividade económica em Portugal. Todos os empresários gostariam de ter garantido o pagamento, sempre. Infelizmente, o risco de não - cobrança mantêm-se em todos os sectores, e parece não existir no retalho farmacêutico. Aliás, o Ministério da Saúde chega a pagar com prazos de mais de 300 dias à Indústria farmacêutica. Se isto acontecesse às farmácias, como reagiriam elas?

Friday, August 31, 2012

Crónica de uma morte anunciada

Durante décadas, o retalho farmacêutico viveu faustoso. Durante décadas, os detentores de uma farmácia, limitavam-se a levar o dinheiro da caixa registadora, não se preocupando com as entradas e saídas de capital, tal era a bonança.

O negócio realizado com o principal cliente, o Estado (e por esta via, o Contribuinte), falhou, porque o Estado está falhado. Agora, faz-se a missa: Duas em cada cinco farmácias tinham fornecimentos suspensos, em Junho deste ano, e mais de 600 podem estar em situação de ruptura, uma situação que a ANF considera de «catástrofe», exigindo medidas rápidas do Governo para salvar o sector.

Como a vergonha não tem preço ou valor, depois dos milhões de lucros acumulados ao longo de décadas, pede-se o apoio do Estado, e por esta via, do Contribuinte, quando existem mais de um milhão de desempregados, e quando as filas de emigração se alargam.

Que topete!

O Estado, através da gestão do Ministro Paulo Macedo conseguiu alguns resultados: Reconhecendo que o Ministério da Saúde conseguiu bons resultados com a sua política de medicamento, nomeadamente o aumento do consumo e a redução da despesa do Estado e do beneficiário, João Cordeiro considerou que agora é «urgente que o Governo encare com frontalidade a gravíssima situação das farmácias».

O que devem fazer os farmacêuticos, donos de farmácia, deverá ser o mesmo que fez o Dr. Paulo Macedo. Baixar a cilindrada do parque automóvel. Baixar o luxo no interior de cada farmácia, que afinal dizem que é um serviço de saúde público. Frequentar uns cursozinhos de gestão doméstica, isto é, procurar não gastar mais do que recebem, como faz qualquer cidadão. E reencontrarão o caminho da eternidade. Se não o fizerem, aumentarão o número crescente de falidos.

Wednesday, July 18, 2012

As esperadas boas notícias II

Por vezes, nada melhor do que não ter dinheiro, para se poder reduzir a despesa. Pode parecer duro, mas as sociedades mais ricas têm por vezes demasiada complacência, o que as torna despesistas e consumistas. Quantas vezes, não nos damos conta, num programa de televisão, ou num passeio pela rua, que há pessoas que gostam de exageros, apesar de muitas vezes, nem poderem sequer ter o essencial, quanto mais o excessivo.

Vejamos o extraordinário resultado para o Estado e para os contribuintes, resultante da política promovida pelo Ministro Paulo Macedo de quase imposição dos genéricos, através da obrigatoriedade do princípio da "denominação comum internacional":


  1. “Pela primeira vez, a quota de mercado dos medicamentos genéricos no mercado total ultrapassou os 60%, o que é um número que nunca tinha sido atingido”, disse Paulo Duarte na Comissão Parlamentar de Saúde.
  2. No mesmo mês, verificou-se um “maior aumento de quota de mercado nos medicamentos genéricos”, situando-se nos 6,7 pontos percentuais face a uma média anterior de 5,5 pontos percentuais. Para o vice-presidente da ANF, estes dados evidenciam que “a medida está a ter efeitos do ponto de vista do comportamento do mercado”. 
  3. Também neste mês, registou-se “a maior redução do preço médio dos medicamentos” desde o princípio do ano: 20,3% face aos preços praticados em Janeiro. Já o preço médio dos genéricos reduziu 51,2%.
  4. Sobre a evolução média dos preços dos medicamentos de marca, Paulo Duarte adiantou que, desde 2009, a variação não é significativa. “A redução tem acontecido praticamente a nível dos genéricos”, disse, comentando: “No fundo, são os genéricos que estão a contribuir para as poupanças” na despesa do Serviço Nacional de Saúde (SNS) em ambulatório, que reduziu 316,4 milhões de euros em 2011, enquanto a despesa no sector hospitalar subiu 12,8 milhões de euros. 
Claro está, que pelo caminho ficarão alguns danos colaterais:
  • O responsável alertou que “as dificuldades das farmácias estão a tornar-se cada vez mais as dificuldades dos utentes conseguirem aceder aos medicamentos”. Dados da ANF divulgados por Paulo Duarte na comissão indicam que, desde Abril, o mercado tem reduzido mais de 10% em valor, com aceleramento a partir de Junho. “Em Junho tivemos uma redução de mercado de 16% e em Julho de 14,5%”, um valor estimado com base nos primeiros 15 dias de mercado. Em termos de unidades não há variações significativas e em termos de despesa pública do SNS verifica-se, até agora, uma redução de 8,1%, adiantou. 
Falta dizer que alguns laboratórios farmacêuticos multinacionais a operarem em Portugal, provavelmente deixarão o país em breve, pois este mercado passará a ser absolutamente marginal e desinteressante.

Thursday, July 12, 2012

Onde estão os milhões ganhos no passado?

Quem gere um negócio, tem que saber gerir os altos e os baixos do mesmo. Não há muito tempo, transaccionavam-se farmácias de oficina a 5, 6 ou mais vezes, o valor da sua facturação. Para que não fiquem dúvidas, transaccionavam-se farmácias por 5 ou 6 milhões de euros, que não chegavam a facturar 1 milhão por ano. E quem comprava, achava que tinha feito um grande negócio.

Como o Estado português foi forçado a gerir melhor o interesse público, por imposição dos seus credores internacionais, passou a saber gerir melhor a sua relação com o retalho farmacêutico. Claro, os donos de farmácia que ganharam milhões durante mais de uma década, agora não sabem o que fizeram ao dinheiro ganho. Perante este cenário expectável, agora só falta pediram um bailout ao amigo Estado: Mais de 1100 farmácias têm actualmente os fornecimentos suspensos e a situação económica é de tal forma insustentável que não permite cobrir os custos fixos na maioria destes estabelecimentos.

De facto, quem não sabe ser merceeiro, deve fechar a loja. Quando os lucros eram grandes, e foram-no durante mais de uma década, ninguém se queixava. Aliás, parece que fecharam nos últimos 2 anos, centenas de restaurantes, de fábricas, ou até milhares de empresas de serviços, mas há sempre quem se queixe, mas tenha dinheiro suficiente para pagar consultoria muito bem paga,  para pedir ajuda: As farmácias "defrontam uma situação económica em que a atividade normal não permite cobrir os custos fixos numa maioria de farmácias", conclui um estudo da Nova School of Business & Economics, coordenado pelo economista e especialista em Saúde Pedro Pita Barros, que está a ser apresentado hoje na Associação Nacional das Farmácias.


Será que ainda vamos assistir a uma ajuda especial, vulgo bailout, ao sector farmacêutico com o beneplácito da Tróika, e à semelhança da banca? Em Portugal, tudo é possível.

Monday, June 04, 2012

Finalmente, a receita por DCI


Custou várias legislaturas. Custou vários Ministros. Desta é de vez: A partir de hoje quando receber uma receita não terá o nome do medicamento. A prescrição médica vai passar a ser feita pela substância activa. É a chamada prescrição pela denominação comum internacional (DCI).

O "problema" era este: O que esta lei origina é que o médico, passando a receita pela substância activa, deixa para o doente a opção de escolha do medicamento, podendo escolher pela marca ou pelo mais barato. Antes, os médicos tinham de assinalar com uma cruz, na receita, a possibilidade de o medicamento receitado poder ser substituído por um genérico.

Naturalmente, que a medida em causa beneficia o Estado, e logo o contribuinte, mas prejudica muita gente que vive na sombra do erário público: A Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (Apifarma) defende ao "Público" que algumas medidas desta lei "põem em causa a autoridade do médico, criam riscos desnecessários para o doente e têm consequências críticas para as empresas nacionais, ao pôr em causa o sistema de licenças, em que se baseia parte da sua actividade, criando graves prejuízos para a sua sustentabilidade e existência".

Mesmo outros, que aparentemente eram a favor desta alteração, agora vêm queixar-se: "as farmácias devem ter sempre disponíveis para venda no mínimo três medicamentos com a mesma substância activa, forma farmacêutica e dosagem, de entre os que correspondem aos cinco preços mais baixos de cada grupo homogéneo, devendo dispensar o de menor preço, salvo se for outra a opção do doente". E é aqui que as farmácias falam da dificuldade, já que em alguns casos têm de ter muitos medicamentos disponíveis, de marcas diferentes, em cada unidade.

O doente informado é beneficiado. O Estado e o contribuinte suportam menos custos. Os que se sentem prejudicados devem procurar novas oportunidades de negócio.

Wednesday, May 02, 2012

Farmácias Portuguesas: a esperada queda aos infernos

Durante décadas, o negócio farmacêutico viveu de um proteccionismo, muito para além do condicionamento industrial dos tempos de Salazar. Abertura de novas farmácias limitada. Posse de farmácia limitada a farmacêuticos. Margens de lucro fixadas por Lei. Acordo vantajoso conseguido com o seu principal cliente, o SNS.

Só um cego, conseguiria que uma farmácia não desse lucro. Tudo isto, perante a perda de força dos contribuintes e dos doentes. Tudo isto, com o beneplácito da poderosa Indústria farmacêutica.

Como muitos sonhos acabam em pesadelos, os donos de farmácia descobriram finalmente o que é ter riscos com a posse de um negócio: 

  1. As sucessivas mexidas nos preços dos medicamentos e a redução das margens de lucro das farmácias estão a levar o setor à asfixia.
  2. A Associação Nacional de Farmácias (ANF) apresenta hoje um estudo, encomendado à Universidade de Aveiro e a uma empresa de contabilidade, que traça um cenário negro do setor.
  3. há 844 farmácias com fornecimentos suspensos por dívidas aos fornecedores.
A solução que a ANF apresentará como mais provável para a melhoria do sector, deverá passar inapelavelmente por algumas ajudas do sempre vilipendiado, mas amigo, Estado! Já se devem ter esquecido dos rios de dinheiro que ganharam com o condicionamento concorrencial providenciado pelo Estado, por décadas. É tempo de os colocarem em cima da mesa, para fazerem a necessária reengenharia do negócio, pois o Estado português faliu por décadas.

Sunday, March 18, 2012

Comadres

A operação relax redux:

  1. A IMS explica que “tomou conhecimento da imputação de suspeitas de alegados crimes informáticos que envolveriam dados de farmácias e está totalmente confiante de que, no que toca à IMS Health, não há qualquer fundamento para estas suspeitas”.
  2. “A IMS Health investiu muito esforço para tentar reconstruir o seu Painel de Farmácias no seguimento do litígio que a opõe à ANF, de forma a ser capaz de prestar informação no mercado como qualquer outro concorrente, e limitou-se a recolher dados transaccionais sobre vendas de farmácias, cuja recolha estava contratualmente legitimada”, refere a empresa.
  3. “A IMS Health tomou também conhecimento de que esta investigação teve origem numa queixa da ANF, entidade com quem a IMS Health, como é do conhecimento público, tem um litígio pendente há vários anos, com base em diversos fundamentos”.

Wednesday, March 14, 2012

IMS: grande relax

Afinal, o tráfico é algo global e aparentemente realizado com grande ligeireza: através do sistema informático a IMS Health conseguia ter acesso a informação privilegiada que em circunstâncias legais estaria apenas disponível à ANF. A multinacional tinha assim acesso ao tipo de medicamentos que eram mais vendidos, quem eram os destinatários, os historiais clínicos dos doentes, bem como informação sobre o receituário dos médicos. Estes dados eram por sua vez vendidos a outras empresas além-fronteiras, com o objectivo de controlar a concorrência.


Entidades reguladoras? Ministério Público? Lei? A festa continua em Portugal!

Tuesday, March 13, 2012

IMS: relax?

Tempos turbulentos. Tempos de volatilidade. Por vezes resultam em tempos de vale tudo!

Não percebemos o que quer dizer isto: A Polícia Judiciária (PJ) desmontou uma fraude no sector farmacêutico, como resultado da “Operação Relax”, desencadeada no âmbito de uma investigação de seis meses. Segundo informações da PJ, o caso envolve crimes de “burla informática, sabotagem informática, dano a programas ou outros dados informáticos, acesso ilegítimo, acesso indevido e tratamento transfronteiriço de dados pessoais”.

Sabemos que as farmácias estão mal económica e financeiramente. Mas, estes contornos são surreais: esta rede era encabeçada por uma farmácia bastante famosa em Portugal que, a partir de um software informático, estaria a controlar os movimentos de cerca de 250 outros estabelecimentos farmacêuticos. Ainda segundo a mesma fonte, a recolha destes dados permitia à referida farmácia conseguir ganhar vantagem em concursos públicos.

Depois da falência de Portugal, perpetrada intencionalmente,  a que mais teremos que assistir?

Thursday, January 19, 2012

Farmácias: o fim de festa

Depois da festa de décadas de lucros garantidos, de controlo da oferta de lojas abertas, e de garantia do pagamento dos créditos por parte de um Estado gastador, vem a borrasca da realidade de que Portugal é um país pobre, mas tem que ser honesto.

Não se faz por aqui, o culto da pobreza. Faz-se antes, o culto da oportunidade para todos, do rigor e do mérito. Em Portugal, tudo parece existir à volta do Estado - feudal. O Estado português faliu por muitos anos. Agora, a sociedade se quer sobreviver, tem que mostrar que tem valor, e que não vive apenas porque está agarrada ao Estado.

Este panorama reforça a ideia de que o sector do retalho farmaceutico vivia faustosamente com o apoio claro do Estado, e só por isso:

1. De acordo com o estudo, o número de farmácias com fornecimentos suspensos era de 255 em Dezembro de 2009, de 450 em Dezembro de 2010 e de 795 em Dezembro de 2011, o que traduz uma variação de mais 212% em dois anos. No final de 2009 havia 121 processos judiciais em curso para regularização das dívidas, número que subiu para 287 no final do ano passado, uma variação de 145%. Já o número e farmácias com um prazo de pagamento superior a 90 dias ascendia a 1.169 em 2011, mais 39% do que as 839 que estavam na mesma situação em 2009.

2. João Cordeiro ouvido na AR por requerimento do PS, para debater a situação financeira das farmácias, avisa que são já muitas as farmácias em insolvência. E, perante esta situação, a Associação Nacional de Farmácias avança com uma proposta para fixar a margem de lucro das farmácias com cada medicamento.

Estes Senhores empresários, que até têm algum mérito, têm que saber sobreviver sem o apoio descarado do contribuinte. E deixarem-se de feudalismos, como este: O presidente da ANF, João Cordeiro, considerou “urgente o Ministério da Saúde olhar para estes números”, sublinhando que “a situação é muito grave”.

Relembremos que possuir uma farmácia, na sua grande maioria dos casos, era sinónimo de ser rico, até há pouco tempo. E no fundo, ter um negócio aberto implica sempre risco e adversidade, que deve ser compensado por capacidade e engenho do empreendedor, para assim vir a ter interesse comercial. De outra forma, gera-se iniquidade, gerada por relações perigosas.

Tuesday, December 06, 2011

A evidente incapacidade de gestão

Durante décadas, possuir uma farmácia significava: sucesso, status, riqueza aparente, ou riqueza real. Claro que este maná, fundamentava-se em: contingentação do mercado, isto é, as farmácias beneficiavam de uma protecção legal, que evitava a abertura do número de farmácias necessárias ao mercado. Depois, os lucros estavam garantidos por Lei. E ainda, a corporação das farmácias, geria bem a sua relação com o seu principal pagador, o Estado.

Entretanto, com a bancarrota do Estado português, os credores do Estado impuseram um corte drástico na comparticipação no pagamento dos medicamentos. Os principais consumidores de medicamentos, os idosos, vivem de reformas baixas ou muito baixas.

Perante este cenário, a festa está a chegar ao fim:

1. Distribuição precipitada de dividendos, stocks descontrolados, caixa e crédito das farmácias usados para pagar divórcios, casas, carros e férias sem ter em conta necessidades futuras como pagamento a distribuidores ou modernização. São muitas as razões encontradas pelos vendedores para a falência de farmácias e excesso de oferta no mercado de venda e trespasse.

2. Apesar da desvalorização, nenhum admite que o negócio tenha deixado de ser rentável, passou apenas a ter de ser mais bem gerido: uma farmácia com uma facturação anual de um milhão era vendida por três. Hoje está no mercado a 1,2 milhões.

3. “Antes as margens davam para tudo, para os empregados roubarem, para férias, para casas. Hoje é preciso uma melhor gestão”, diz ao i o representante que tem as 87 farmácias. Assumir o passivo significa ter o dinheiro disponível. E os intermediários cobram ainda a sua margem: “São situações em que se pode negociar com os bancos, mas em grande parte as dívidas a fornecedores, que também estão com a corda na garganta, são para pagar logo”.

Na India, as vacas sagradas morrem de velhas. Em Portugal, parece que já não há vacas gordas. Em Portugal, os empresários sem concorrência, já não têm dinheiro para pagar a sua incapacidade de gestão!

Sunday, July 03, 2011

Regozijo? Nem por isso.

Durante décadas, possuir uma farmácia significava: ser rico e ter status. Porquê? Porque:
  • Ser proprietário de uma farmácia, não significava ter risco.
  • Era dinheiro em caixa.
  • Qualquer farmácia dava, pelo menos, algum lucro.
  • Algumas farmácias facturavam mais do que muitas empresas médias em Portugal.
  • Os lucros eram garantidos por Lei.
  • A concorrência não aumentava porque, não se pode abrir farmácias, como se abrem restaurantes ou papelarias.
  • A ANF conseguiu fazer um acordo com o principal pagador das farmácias, o Estado, em que se ultrapassava o habitual risco de crédito a clientes.
Só que, na economia, há os ciclos positivos e o ciclos negativos. E a tempestade rebentou:
  • Para alguns, o cenário é dramático. Para outros, de sobrevivência; e só alguns conseguem respirar de alívio. A prová-lo estão os últimos dados da associação do sector, que revelam: 1056 farmácias estão no "limiar da sobrevivência".
  • Quem, há dez anos, quisesse entrar no mundo das farmácias tinha duas opções: lutar por um alvará que permitisse a abertura de uma nova farmácia - respeitando as regras para estas situações - ou arranjar uma quantidade astronómica de dinheiro para comprar o alvará de uma que já estivesse em funcionamento.
  • No entanto, nos últimos anos, o panorama mudou drasticamente, e quer seja por causa da crise, das alterações na legislação ou simplesmente por má gestão por parte dos responsáveis pelas oficinas farmacêuticas existentes, a verdade é que hoje comprar uma farmácia já não é tão caro como construir um estádio de futebol. Aliás, o DN soube que há mesmo casos de farmácias que são vendidas pelo preço simbólico de um euro.
Habituem-se. Mas, este sector se for efectivamente gerido (até agora, gerir uma farmácia era tão fácil como "saltar à corda", ao ponto de ser um eufemismo falar em "gestão de uma farmácia"), tem muitas possibilidades de ser um sector atractivo, pois só os hipocondríacos fazem do negócio farmacêutico, um grande negócio!

Wednesday, April 06, 2011

Portugal no fim da linha

Dívidas. Taxas de juro. Déficits. Insolvência. Bancarrota. Economia. São palavras que enchem os telejornais, os jornais, os fóruns, as conversas de café. A maior parte do que é dito e escrito, nem sequer é bem escrito ou bem falado. Muito do que se afirma, nem sequer tem um suporte factual. Mas, Portugal está a chegar ao fim. Ou pelo menos, vai ter um intervalo longo.

Esta é só mais uma prova, e bem clara: As farmácias da Madeira decidiram suspender definitivamente, a partir de 1 de Maio, a dispensa de medicamentos a crédito aos beneficiários do Serviço Regional de Saúde (SRS), devido a uma dívida de 116 milhões.

Quando a entidade que deveria ser mais respeitável e respeitada faz isto: Deduzidos os 36 milhões financiados pela Caixa Geral de Depósitos, o executivo de Alberto João Jardim tinha-se comprometido a pagar gradualmente em oito anos os remanescentes 85 milhões, mas falhou esse acordo logo no primeiro mês.


Já não há valores. Já não há dignidade. Já não há nada. É o vazio.

Friday, March 18, 2011

Yo no creo en las brujas

Pero que las hay, las hay: O presidente da ANF deu o exemplo de um medicamento "inovador com preço aprovado em sete dias úteis, que não estava aprovado nem comparticipado em nenhum país da União Europeia".

E rematou o mesmo Senhor: João Cordeiro propôs a extinção do Infarmed.

Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades.

Wednesday, March 16, 2011

Porreiro, pá!

É com puro desprezo pelo Contribuinte que se faz isto: "O Governo acaba de assinar um protocolo com a indústria farmacêutica para reduzir a despesa com os medicamentos sem ter de rever os preços pela quarta vez, uma medida que estava prevista para Abril."

Depois disto: anunciada a redução do preço dos medicamentos já para o próximo mês, o governo suspendeu agora a revisão dos preçários esperando poupar assim 100 milhões de euros este ano, sem prejuízo ou benefício para os utentes. A indústria farmacêutica está satisfeita, os farmacêuticos nem por isso.

Resumindo, só faltava a Senhora Jorge vir dizer que cada português tem a felicidade de a ter como ministra e agradecer-lhe todos os esforços e sacrifícios que faz cada dia.

Porque como aqui se diz: "afinal os preços já não vão baixar em Abril", apesar da Senhora Jorge ter vindo dizer que isso se iria verificar.

Estamos felizes por ter uma Senhora Jorge.